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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

O Kaos Em Bauru

Jorge Mautner fez um show em Bauru 2 semanas atrás, and e eu escrevi sobre na Paradoxo. Read it!

O kaos comportado de Mautner
Crescido no Tropicalismo, Jorge Mautner apresenta seu show para privilegiados no SESC de Bauru [SP]

por Daniel Faria[26/09/2007]

Bauru [SP] - A alcunha “artista maldito” sempre pareceu cair bem para o compositor-escritor-poeta-do-Kaos Jorge Mautner. Filho de judeu austríaco e mãe iugoslava - que vieram para o Rio de Janeiro no final da década de 30, refugiados do Holocausto -, transitou durante toda a carreira pelos diversos movimentos culturais do País, mas nunca foi efetivamente reconhecido. Justiça seja feita: hoje, mais de 30 anos após lançar seu primeiro LP, Pra Iluminar a Cidade [1972], Mautner é ídolo de uma nova geração que, enfim, prestigia o trabalho de um heroí da cultura popular brasileira.

Para se ter uma idéia, os membros da Orquestra Imperial elegeram Mautner como seu guru e mestre espiritual. Caetano Veloso revitalizou sua própria carreira ao gravar com o carioca o disco Eu Não Peço Desculpas [2002], vencedor do Grammy Latino. Até hoje, "Maracatu Atômico", de sua autoria, é a música mais aguardada nos shows da Nação Zumbi. Admiração dos mais jovens, respeito profundo dos mais velhos, esperava-se um público de idade heterogenea no Serviço Social do Comércio [SESC] de Bauru, interior de São Paulo, na última quarta-feira [19].

As 400 pessoas presentes encheram o salão para ver o velhinho Mautner, acompanhado do músico Nelson Jacobina. Universitários, professores, ex-universitários, músicos e a classe média defensora das artes que está sempre presente nesses eventos do SESC, mas não sabe diferenciar Oswaldo Montenegro de Arrigo Barnabé, formavam o público.

_pagão com profeta de israel
O clima intimista serviu para apresentar aos incautos um artista que Caetano definiu como uma “improvável mistura de pagão com profeta de Israel”. Mais do que um ex-hippie tresloucado, Mautner se mostrou uma pessoa extremamente irreverente, aquele humor tipicamente judeu, contando histórias de Cartola, do poeta russo Maiakowski, e fazendo joça com um senhor chato que ficou o show inteiro pedindo Vampiro, sua música mais conhecida.

O repertório foi baseado no disco que gravou com Caetano [Eu Não Peço Desculpas] e em seu álbum mais recente, Revirão, lançado no começo desse ano. E haja desfile de ótimas e divertidas canções. “Manjar Dos Reis”, “Feitiço” [canção-provocação a “Feitiço da Vila”, de Noel Rosa], a balada-mariachi-caipira “Todo Errado”, “Assim Já é Demais”, todas executadas a causar comoção e risos na medida exata. Em “O Executivo-Executor”, Jacobina assume os vocais, numa sátira com os empresários e o desemprego.

Nelson Jacobina, aliás, é um músico extraordinário. Acompanhando Mautner desde o começo da década de 70 e co-autor de praticamente todos seus grandes clássicos, o músico é um violonista incrivel e um dos melhores guitarristas do país. Usa e abusa dos pedais, conduzindo a base rítmica com simplicidade em “Os Pais” [parceria com Gilberto Gil e de letra banal, um dos pontos fracos do show] ou experimentando tons atonais em “Orquídea Negra”, sucesso na voz de Zé Ramalho. Muito subestimado, infelizmente.

Para encerrar, “Locomotiva”, famosa na voz de Wanderléia, e “Maracatu Atômico”, regravada a exaustão por vários artistas, como que para demonstrar que o ecletismo do conceito tropicalista vive em Mautner. Seria ótimo se essa abrangência resultasse num público adequado para toda sua inspiração. Pelo menos os 400 privilegiados presentes no SESC não puderam reclamar da noite agradável.

Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

Alguém ainda visita o Flop-Art? Setembro é mês da vergonha, uma única postagem. A verdade é que há projetos novos e o blog deve ser deixado de lado. Ou ser incorporado no novo projeto, que também é uma opção legal. Ou não. Por enquanto, deixo minha matéria sobre o disco novo da Maria Rita, que escrevi para a Paradoxo dessa semana. Sem mais.
Maria Rita, agora sem impacto

A última grande promessa da música brasileira lança seu terceiro disco pagando tributo ao samba
por Daniel Faria[19/09/2007]

Não é difícil tomar partido quando o assunto é Maria Rita. A cantora, que acaba de lançar seu terceiro disco de estúdio, Samba Meu, pela WEA, é capaz de angariar fãs ardorosos com a mesma facilidade com que consegue provocar detratores de sua música. Após o grande sucesso de seus primeiros discos [800 mil cópias do primeiro álbum, Maria Rita e 500 mil do Segundo, mais três prêmios Grammy], Maria retorna tentando desmistificar sua própria imagem. "Meus dois últimos discos estavam formando uma aura de diva intocável que não combina comigo”, afirmou a artista.

Samba Meu, como o próprio nome sugere, é uma coleção de sambas; estilo que a cantora chama de “jovial” e “alegre”. A tentativa de soar despretensiosa e solta se reflete na escolha dos compositores. Descarta-se o herói-moderno-da- música-popular-brasileira, o sempre presente Marcelo Camelo e opta-se por sambistas puros, principalmente o produtor Leandro Sapucahy e o compositor Arlindo Cruz, responsável por 6 dos 14 sambas espalhados pelo disco, como "Tá Perdoado", primeira música de trabalho.

Pena que a opção pela estética libertária do samba tenha sido feita no momento errado. No atual instante da música brasileira, com artistas como a Orquestra Imperial, Cidadão Instigado e Roberta Sá procurando revitalizar a canção tradicional do País, uma persona da relevância de Maria Rita gravar um álbum que tenta resgatar o lado mais simplório do samba é um despropósito.

Não que Samba Meu seja um disco ruim, mas é viável esperar diversão e malandragem carioca sincera, como rezam as músicas "Tá Perdoado", "Maria do Socorro" ou "Corpitcho", de uma mulher que passou oito anos estudando nos Estados Unidos? O problema é essa apropriação da estética alheia para levantar a carreira de uma artista que surgiu exatamente com o estigma de precursora de uma nova MPB. Se seus primeiros álbuns não eram o supra-sumo da originalidade, pelo menos a cantora se apoiava em compositores – como, obviamente, Marcelo Camelo - preocupados com o próximo passo da música no País. Eram ricos musicalmente, uma mistura interessante entre jazz, MPB e pop, conduzida por sua voz correta. Samba Meu prefere jogar na defesa e arriscar pouco.

Impossível não estabelecer conexão com Universo Ao Meu Redor, de Marisa Monte, lançado junto com Infinito Particular; dois dos melhores álbuns do ano passado. Assim como Maria Rita, Marisa também pretendeu homenagear o samba, emprestando sua perfeição vocal e elegância a um estilo que ela domina e promove há décadas. Sem a intimidade com o samba e de vocal limitado, se comparada a Marisa, Maria Rita perde feio. Ela até tenta equilibrar simulando descontração [vide o visual atual da cantora, sempre sorrindo e com pele à mostra] e bom humor, mas qual a graça de versos como “Maria do Socorro é a fim do Zé Galinha, mas namora o Zé Cachorro”?

A filha de Elis Regina se mostra uma artista deslocada, quase alienada, e isso definitivamente não é um elogio. “Eu não tenho a pretensão de ser sambista. Eu não nasci no morro, eu não nasci no Rio, não vivi o samba do jeito que os sambistas dizem, e sim do ponto de vista do ouvinte”, explica para quem pretende acusá-la de oportunismo. “Esse disco é uma declaração de amor, baseado na paixão que eu tenho e no bem que o samba me faz”. Barra limpa? Nem tanto.

Se ela pode gravar um disco sobre o que quiser, parabéns a seu empresário e seus produtores, sempre tão “comprometidos” com Maria Rita [quem se lembra do “mensalinho” de seu segundo disco, quando a gravadora da cantora distribuiu um kit de imprensa em que constavam, além do CD e do DVD com o making of da gravação, um aparelho iPod Shuffle, contendo as músicas do disco, a fim de “facilitar” a vida dos críticos de música do Brasil?]. Esperar relevância e boa vontade com um disco derivativo como Samba Meu já é outro assunto. Não serve nem como trilha sonora para a feijoada de domingo com a família.

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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007

Vanguart: Pretensão de Mais ou de Menos?

Outra reprodução de uma matéria na Paradoxo. Desse vez, escrevi uma texto para a entrevista que o repórter Cleyton Brito fez com Hélio Flanders, vocalista da banda mais incensada do indie nacional, o Vanguart. Aproveitei e fiz uma pequena resenha sobre o disco de estréia do quinteto de Cuiabá. Engraçado como a indústria do hype já começa a se instalar no Bananão, após alguns anos de atraso. Espero que a quantidade de bandas comentadas nos grandes meios aumentem [esse álbum do Vanguart, por exemplo, foi bem elogiado na Folha de São Paulo], porque todos só temos a ganhar com isso. Se eu acho ou não algum valor artístico na grande maioria das bandas, pouco importa. A mobilização é mais importante. Ao menos a possibilidade de ganho a médio prazo existe, acredito eu. Quero falar mais sobre o assunto daqui a pouco, e agradecer o bom senso e boas argumentações que o Dary Jr., do Terminal Guadalupe, e o Fabs, dos Telepatas estão desenvolvendo comigo. Ambas lançaram discos há pouco tempo e pretendo resenhá-los em breve, aqui mesmo. Quanto ao Vanguart, não é essa maravilha toda que os independentes estão alardeando, mas não é tão ruim quanto alguns críticos “precavidos” falam por aí. A banda tem talento, e uma pretensão até interessante, em comparação aos outros grupos nacionais. Torço para que a banda aconteça. Não acredito, mas torço. É isso por hoje.

Obs: a entrevista está no site, só publico material meu nesse blog. Visita lá!

Vanguarda de mentirinha

Finalmente sai o primeiro álbum dos queridinhos independentes de Cuiabá, a banda Vanguart

Pode apostar: nove entre dez adeptos do novo universo da música independente veneram a banda Vanguart como a última grande revelação do país. São os principais representantes do chamado Movimento Fora do Eixo, termo usado para classificar os grupos que vem de estados não tão tradicionais da história do rock brasileiro. Bandas como Los Porongas [Acre] Montage [Ceará], Madame Saatã [Belém] e o próprio Vanguart [Mato Grosso] querem provar que não apenas na tríplice Rio-São Paulo-Belo Horizonte se produz música no Brasil.

Formado por Hélio Flanders [vocais, violões e gaitas] – poeta indiscutível para alguns, picareta pretensioso para outros – David Dafre [guitarras], Reginaldo Lincoln [baixo] Douglas Godoi [bateria] e Luiz Lazarotto [teclados], o Vanguart acaba de lançar seu disco de estréia homônimo, pela gravadora/revista independente Outracoisa. No ano passado, os cuiabanos circularam o país em apresentações bem sucedidas em festivais e participaram de projetos como o Tour Banda Antes, da MTV.

O álbum de estréia peca pela falta de foco. São três idiomas diferentes [inglês, português e espanhol] distribuídos em 14 canções que talvez merecessem um cuidado maior. Os fãs mais fiéis porém devem se deliciar com canções já conhecidas dos shows, como “Cachaça”, “Semáforo” e “Hey Yo Silver”, principais destaques do disco. As influências ainda estão muito explícitas – Bob Dylan, Clube da Esquina, Radiohead [os maneirismos vocais de Hélio insistem em emular Thom Yorke] – e as letras fingem-se de poesia lírica para disfarçar o nonsense de bobagens como “Miss Universe” ou “Los Chicos de Ayer”.

A crítica dividiu-se entre os empolgados com a verve poética das letras e entre os descrentes, que acusam a banda de descabidamente pretensiosa. A verdade é que Vanguart, o disco, tem boas melodias, apesar de manjadas, e letras fracas. Falta personalidade, mas há algum talento. Talvez o verdadeiro teste seja a participação da banda no Tim Festival, em outubro, ao lado dos indies gringos, como o Killers e o Arctic Monkeys. O repórter Cleyton Brito falou com o vocalista Hélio Flanders.

Crítica: Vanguart, o Disco

Há três maneiras de se analisar o disco de estréia do Vanguart. A primeira é comparar o grupo com suas influências. A descarada tentativa de soar pretensioso só funcionaria se o grupo tivesse ao seu dispor um produtor como Nigel Godrich [Radiohead, Travis, Beck], porque os timbres e a produção duvidosa do álbum não condizem com as idéias grandiosas do grupo. As letras que deveriam projetar crônicas, à Bob Dylan, esbarram em versos trôpegos como “pensava ela em casamento eu em futebol, era dezembro, ainda me lembro do sol”. Perde alguns pontos.

A segunda é olhar para os indies gringos, e constatar que o Vanguart despreza seu tempo. Se o Arctic Monkeys e o Klaxons causam empatia em seus fãs por tratar de assuntos ao seu alcance – baladas, bebidas, celulares, luzes – os cuiabanos se pretendem antiquados, superiores as banalidades. Não querem soar datados, mas também não conseguem criar obras atemporais, exatamente pelo planejamento retrô de suas canções. É até divertido tentar decifrar para quem o grupo paga tributo (semi-plágio?) em algumas canções. Continua na mesma.

E por fim, a terceira maneira é contextualizar o grupo com seus parceiros independentes. É aqui que o grupo se supera da levada, porque investe em alguns fatores primordiais para vender sua música. Hélio Flanders vem sendo chamado de poeta, suas canções tem estruturas clássicas, com refrões prontos para serem gritados a plenos pulmões pelos fãs. Há certa aura messiânica, que pode atrair alguns desprevenidos. Ganha alguns pontos, porque tenta se diferenciar do tradicional lenga lenga “não nos importamos com o que pensam de nós, apenas fazemos o que gostamos”, mesmo que de forma velada.

Somando daqui e subtraindo dali, Vanguart, o disco, merece uma nota 5, o que é um grande feito para uma estréia de uma banda independente nacional. Justo?

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Assista ao clipe de "Cachaça"


Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007

Entrevistando: Ludov

Reproduzo minha entrevista com a Vanessa Krongold, a simpática vocalista do grupo paulistano Ludov. A matéria foi publicada na última edição da Paradoxo. Só.

E se Não Houvesse Refrão ?

Banda paulistana Ludov lança disco novo, celebrando a simplicidade; a Revista Paradoxo falou com a vocalista Vanessa
Krongold
por Daniel Faria[21/08/2007]

Você provavelmente conhece o Ludov. Aquela banda que ganhou o Vídeo Music Brasil da MTV, em 2004, com o clipe-animação fofinho de “Princesa”, música preferida das garotinhas universitárias. Não sabe do que se trata? Então você deve conhecer a canção “O Que Eu Procurava”, da trilha sonora do filme High School Musical, do Disney Channel. Ainda não? Pois você pode estar perdendo a melhor banda de pop-rock – o termo faz todo sentido nesse caso – do país no momento. Suas canções são positivas e contagiantes.

O Ludov trilha praticamente sozinho o meio termo entre o mainstream – planejado, repetitivo - e o underground – descompromissado, às vezes amador em excesso. Há tempos deixou o circuito independente e vem adquirindo um público cada vez mais interessado nas belas composições do grupo. Guardam ligações com o Pato Fu, por exemplo, mas suas canções não são tão cerebrais. Privilegiam a simplicidade nos arranjos, as letras causam empatia, quase pequenas crônicas do cotidiano de cidade grande.

O grupo surgiu das cinzas do incensado Maybees, banda formada pelos mesmos integrantes do Ludov, com exceção do baterista Paulo “Chapolin”. Trocaram o nome, começaram a compor em português, gravaram o EP Dois a Rodar – que contém “Princesa” – e o primeiro álbum, O Exercício das Pequenas Coisas, lançado em 2005. Uma base sólida de fãs, alguns hits no repertório, lançaram em julho seu segundo álbum, Disco Paralelo, com status de banda consolidada.

A Revista Paradoxo falou com a adorável vocalista Vanessa Krongold, Formada em Publicidade e Marketing [assim como o guitarrista e principal compositor do Ludov, Mauro Motoki], Vanessa é um poço de simpatia. Simpatia, aliás, que contrasta com seu tom de voz denso, em conflito com as composições quase sempre de bom astral da banda. Digo isso a ela. “Sim, apesar das letras terem uma mensagem extremamente positiva, as melodias e os próprios arranjos não permitem que a gente diga que as músicas são exatamente alegres. O interessante é que, apesar disso, o disco não deixa de ser contagiante, especialmente após a segunda ou terceira audição”, explica.

Quem ouve canções como “Ciência” e “Rubi”, a melhor do disco novo, sabe do que ela está falando. Nessa última, você fala em se sentir uma menina, num gramado, o sol batendo. O que te inspira a cantar? “Como intérprete, às vezes eu sinto necessidade de saber no que o autor estava pensando quando escreveu aquelas frases. A partir daí, eu faço a minha leitura desse universo para que possa incluir o meu sentimento na música. Em contrapartida, às vezes é mais interessante deixar a música me atingir como ouvinte apenas, deixar que ela me sensibilize como for, sem racionalizar o que eu canto”.

Ela acabou de resumir o que é o Ludov . Uma banda que usa muito mais os fatores sensoriais e o coração do que a racionalidade, que possa embrutecer a concepção nada consensual que os rodeia. Em “Fugi Desse País”, do disco novo, Vanessa canta que “essa cidade não conhecerá meu fim, o que procuro encontrarei dentro de mim”. A banda propõe aos seus ouvintes escapar, habitar um lugar a parte. É na simplicidade que se encontra a felicidade.

_transpirando inspiração
Apesar do desejo de evasão, o Ludov ainda está entre nós. E onde pretendem chegar com Disco Paralelo? Acredita que é possível subir mais alguns degraus no reconhecimento popular? “Não fazemos esse tipo de plano. A gente está nesse barco há tempo suficiente pra saber que a ansiedade só leva à frustração. O que a gente quer é seguir nosso caminho, continuar fazendo o que a gente acha certo, o que pra gente é música de verdade”, despista.

A verdade é que Disco Paralelo é sim uma tentativa de angariar um público maior. Canções acessíveis, melodias agradáveis, produção competente. Como foi trabalhar com o badalado produtor Chico Neves [O Rappa, Lenine, Los Hermanos]? “O Chico interferiu na medida exata pra acrescentar sem que nada se perdesse. Aquelas mesmas músicas que mandamos pra ele ouvir estão lá, o mesmo feeling, a mesma pegada, a mesma naturalidade de um ensaio. E como foi bom ter ele por perto! Além de ter 100% de controle de cada som que é emitido dentro daquele estúdio, é uma das pessoas mais cativantes que já conheci. Ganhamos uma família de amigos e um álbum com uma qualidade muito além do que podíamos prever”.

Pergunta óbvia: por que Disco Paralelo? “Pareceu ser o nome ideal para um disco que foi feito com tanta liberdade, que nasceu pela simples necessidade de existir. Sabe quando uma banda ou artista quer fazer outro projeto, gravar disco solo, fazer tudo que não pode fazer na sua banda principal porque existe uma série de limitações? Pra gente isso não existe, não temos amarras ou opressões. Tudo que está ali é reflexo de cada um de nós”, responde.

Como você avalia sua evolução como cantora desde o Maybees, há dez anos, e agora, lançando o segundo disco com o Ludov? “Eu acredito que a maior diferença é que hoje eu sou muito mais aberta a receber influências diferentes, o que me oferece mais versatilidade para cantar. Isso se resume em uma palavra: liberdade”. Influências essas que transparecem no disco. Falo para ela que duas faixas do disco, “Noite Clara” e a faixa título me lembraram Los Hermanos, talvez pelas guitarras. Há no Ludov esse interesse em associar o rock à música brasileira?

Ela desconversa. “Sinceramente, nós não temos nada planejado. Não queremos lançar nenhum estilo, tampouco seguir outros. O que você ouve de Ludov é o que a gente consome: arte, viagens, convivência com quem quer que seja. Isso tudo se mistura e é transpirado pela banda”. Perguntada sobre o que os outros membros da banda estavam ouvindo na época de produção do disco, Vanessa cita os dois melhores discos nacionais do ano passado, , de Caetano e Infinito Particular, da Marisa Monte. “Tem razão, eu é que não entrei no clima do Caetano nesse disco”, brinca.

E como foi a repercussão da versão da música “What I’ve Been Looking For” (“O Que Eu Procurava”) para o filme High School Musical, da Disney? “Essa versão só nos trouxe alegrias. Está claro que é um projeto não convencional para o Ludov, mesmo porque foi a primeira música que gravamos que não é nossa, é uma versão. Mas com umas mudancinhas no arranjo, acho que conseguimos deixá-la com a nossa cara, o que é muito estimulante”. Ajudou a banda a ganhar novos fãs? “O público que atingimos com ‘O que eu procurava’ é gostoso demais! É uma delícia ver a criançada nos shows (à tarde, claro) cantando com a gente”.

Os indies mais xiitas não chiaram? “As críticas foram muito poucas, algumas pessoas acham que a gente fez isso em troca de muito dinheiro. Se foi isso, esqueceram de pagar a gente”, retruca em tom de brincadeira. E nem devem levar isso a sério mesmo. Porque o que interessa no Ludov é exatamente essa liberdade, essa pouca afeição a interferências externas. É o que torna o grupo tão atraente. Atemporais, poderemos olhar para trás daqui alguns anos e constatar que não havia banda mais simpática.

Crítica: Disco Paralelo
_álbum é ode ao descompromisso


A primeira impressão é que falta em Disco Paralelo alguma grande canção, como “Princesa” ou “Kryptonita”, do disco anterior. Nenhuma das novas músicas estabelece uma relação imediata com o ouvinte. Aos poucos, porém, é possível criar vínculos com pequenas pérolas como “Sobrenatural” ou “A Espera”. É um disco mais homogêneo, não há nenhuma canção realmente dispensável [com exceção talvez de “Urbana”, previsível demais]. “Noite Clara” e “Disco Paralelo” são as boas surpresas, baladas contidas, perfeitas para o inverno.

Com a saída do baixista Eduardo Filomeno, não existem mais posições fixas no Ludov. Todos revezam-se nos instrumentos, mas são os bons riffs e a condução rítmica dos guitarristas Mauro Motoki e Habacuque Lima, o diferencial do Ludov para outros grupos de pop rock, sem soar banal. As letras ainda falam de assuntos cotidianos, e em canções como “Conversas em Lata” o clima fica denso. No geral, porém, é música para se ouvir em tardes ensolaradas num parque com a namorada(o) do lado. Simples assim.

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Assista ao Ludov tocando "Rubi", no programa Canja do iG

Quinta-feira, 23 de Agosto de 2007

Seis Meses

E o Flop Art comemora meio ano de existência! São seis meses desde o primeiro texto, e aproveito para dar uma de Álvaro Pereira Junior e analisar como os leitores se portaram em relação ao blog durante esse tempo. Lembro do editorial do meu flopado fanzine, quando dizia que dificilmente seríamos lidos, exceto gratas exceções. Pois bem, para além dos leitores invisíveis que habitaram aqui em tempos de vacas magras, tivemos alguns momentos esparsos de brilho. O que começou como distração em um tempo que tinha dúvidas sobre meu futuro como jornaleiro [pensando até em abandonar a faculdade], virou hoje basicamente uma caixa de arquivos, com alguns palpites e enunciações entrelaçadas no meio da balburdia desmedida.

Dessas enunciações, a que mais repercutiu até agora foi um pequeno desabafo que fiz sobre a relação entre jornalistas e as bandas independentes nacionais. Entitulado de Complexo de Vira Lata, o texto repercutiu na comunidade mais legal do orkut, o da revista Bizz. Vamos aos comentários mais interessantes. Vários elogios, e algumas [ótimas] ressalvas. O jornalista Alex Antunes [ex-editor da Bizz, atualmente na Rolling Stone], por exemplo, disse que “a matéria está genericamente correta, mas eu acho que uma ou outra banda das citadas tem uma reserva de carisma e/ou talento para galgar um patamar. A tarefa é dura porque tem que vencer uma barreira de mau humor na crítica/público não-iniciado erigida com base exatamente nas razões expostas, que podem ser chamadas sim de síndrome do vira-lata”. Exatamente. Seria necessária toda uma reestruturação comercial para que tais grupos “aconteçam”. Acho impossível, ao menos em curto prazo.

O cartunista Arnaldo Branco afirmou ter gostado muito do texto, e concordado com metade. “Meu problema é com a música atual, dou o devido desconto para as bandas nacionais porque elas estão com as gringas na mesma sinuca de bico”, explicou. “Hoje as bandas novas citam como referência Cure, Echo - e suas precursoras, Velvet, Stooges, Television, todas elas bandas que nunca foram megabestseller, mas sempre tiveram prestígio. Em tese, estamos vivendo no céu da crítica dos anos 80, mas talvez ele tenha vindo tarde demais e está todo mundo muito cínico pra aproveitar. A molecada, essa sim, deve curtir, eu não consigo, pra mim é tudo diluição”. Discordo, porque, a meu ver, as bandas independentes nacionais ainda estão naquela mentalidade alternativa do começo dos anos 90, mas é uma bela análise.

O curioso da história são os emails que algumas bandas independentes em enviaram, algumas furiosas com o texto, outras tentando demonstrar o outro lado dos fatos. A resposta de um deles, porém, foi emblemática de como os indies tem um pensamento estreito em relação ao sucesso. “Queremos é fazer alguma coisa que a gente realmente sinta que é nossa. Isso pra gente, quer dizer que a gente ganhou”, resumo perfeito que o vocalista de uma banda paulistana que lançou disco essa semana me concedeu, por email. Mais engraçado é um tal de Luciano, que soltou algumas pérolas nos comments do blog. Transcrevo os melhores trechos:

1. quem tá lá [Trama Virtual] ,ta começando,assim como muitos começaram e assim como seu blog começou um dia e pode terminar,na infelicidade de tuas palavras.ou vc começa a falar que o calypso é bom e o povão vem aqui,ler seus textos.
2. me diga, se te derem algum instrumento, vc dá conta de tocar algo?pq garanto que os musicos vão saber escrever, mas garanto que nenhum jornalista musical, dá conta de tocar algo. nem panela. então lhe pergunto:com que propriedade u m jornalista pode analisar musica,sem ao menos saber tocar um instumento?
3. é, eu chego a conclusão que jornalista musical, é um bando de músicos frustrados que não deram conta de tocar e resolveram peidar seus "conhecimentos" por ai..

Mas em matéria de pessoas surreais, nada supera os alienígenas fãs da Natalie Imbruglia que estabeleceram contato nos comments da minha matéria na última edição da Revista Paradoxo. Além de consolidarem o recorde de comentários do site, os fãs tresloucados usaram e abusaram do direito de argumentarem besteiras. O Murilo, de Goiânia, disse que “ela nunca venderá sua música e seu estilo e se transformará em uma FERGIE ou BRITNEY da vida para atingir a BILLBOARD”. Já o Otávio, de Santo André, perguntou se eu era consultor de moda por ter chamado o novo visual da Natchy Embrulho de “femme-fatale-rainha-de-rodeio". Outro fã, o Carlos, ironizou o título da matéria e perguntou: “quem se importa com Daniel Faria?”. Uma tal de Cy, que se diz jornalista, afirma que convive com alguns caras, que como eu (!?), gostam de manter essa imagem de "o cara que esculhamba com tudo e é foooda", mas que eu não tenho vocação para isso. O restante achou absurdo eu afirmar que a Nat só tem uma música, e que ela vai muito bem de vendas na Austrália, obrigado.

Outra história envolve esse blog e um certo site de Rock. Após ter oferecido um texto sobre os 30 anos de Nevermind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols, a editora, que tinha gostado dos meus textos, mesmo me chamando de arrogante e espevitado, acabou entrando numa discussão sobre o fato de eu centralizar a história punk em Malcom McLaren, o empresário dos Pistols. Veio com alguns papos de que supervalorizei o papel do Malcom, e que empresário, qualquer um pode ser. Disse que certos artistas tem “química” e citou o quarteto de Liverpool: “bem, se não fosse o Brian Epstein teria sido qualquer outro. Mas não teria sido qualquer outro Beatles”, assim mesmo. Ainda duvidou que Shakespeare criou o termo “punk” para se referir a prostitutas. Desisti de argumentar e pedi licença para sair, afirmando que meu estilo não combinava com a “atitude rocker” característica do site. Cai na Pressão. Na mesma semana, publicaram no lugar um texto sobre os 20 anos do Appetite For Destruction, do Guns and Roses [e sumiriam com ele, após um tempo: ô confusão!], chamando o disco de “ousado”, “clássico” e outros lugares comuns, típicos do site. E ainda inventaram que o álbum vendeu 25 milhões de cópias! Bem feito para mim.

De resto, alguns bons momentos [publicação de texto na minha revista preferida, a Bizz; convite para escrever no site da Paradoxo; elogios de gente que muito importa; belas discussões no texto sobre o Arctic Monkeys] e outros nem tanto [publicação de texto na ÚLTIMA edição da minha revista preferida, a Bizz; tempos enormes sem postar por culpa da preguiça mórbida; fracasso absoluto do meu fanzine que nem chegou a primeira edição], mas penso que o saldo é positivo. Quero até o final do ano colocar no ar o site que eu e amigos estamos desenvolvendo há um tempo. Então o futuro poderá ser ainda mais interessante que o presente. Até lá, meus amigos gasparzinhos, continuem por aqui.

Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

Fãs

Ah, o jornalismo musical! Tão surreal a ponto de ignorarem meus textos sobre a Tropicália, Radiohead, Orquestra Imperial ou qualquer coisa que valha [penso eu, humildemente, é claro], mas débil o bastante para suscitar comentários de fãs da Natalie Imbruglia, na minha matéria da Revista Paradoxo dessa semana. Ocorreram até alguns comentários raivosos no meu email pessoal. Me defendo: essa pauta foi meio que, er, "imposta" pelo meu editor. O lance era ser galhofeiro mesmo. Nem acho que exagerei. Mas defender a cantora porque ela faz sucesso na Austrália confunde minha cabeça. Imagina se eu falasse mal do Spy Vs Spy... :D

Alguém se importa com a Natalie Imbruglia?

Cantora australiana volta com coletânea de singles dos seus dez anos de carreira

por Daniel Faria[14/08/2007]

Se você tem mais de 20 anos, vai se lembrar daquela menina de cabelos curtos e com franjinha, mezzo rebelde mezzo alternativinha de boutique. Ela é responsável pela chiclete “Torn”, canção das mais executadas nos longínquos anos 90, cantando de roupas largas num cenário que vai sendo desmontado ao longo do clipe. Sim, é ela, Natalie Imbruglia, agora num visual femme-fatale-rainha-de-rodeio, uma Lilian Pacce de olhos azuis travestida de Shania Twain em um canto qualquer do Arizona.

E ela vem de coletânea com algumas inéditas. Glorious: The Singles – 1997-2007 [sai dia dez de setembro, pela RCA], é um apanhado de suas principais músicas de trabalho, porque sucesso mesmo, só “Torn” e “Wishing I Was There”, essa última, a melhor canção da australiana. Há algumas boas pedidas, como “Counting Down The Days” e “Shiver”, outras nem tanto, como as insossas “Smoke” e “Big Mistake”. É uma carreira simplória demais para exercitar comentários mais profundos.

Ruins mesmo são as inéditas. Se o charme da cantora era aquela aparência frágil e canções levemente melancólicas, o que dizer da alegre até dizer chega “Glorious”, faixa título e carro chefe da coletânea? Talvez seja hora de pedir conselhos para o marido talentoso, Daniel Johns, guitarrista e vocalista do Silverchair. O difícil é entender como o atormentado Johns convive com a saltitante neo-cowgirl Imbruglia. E que não convence nenhum pouco nesse novo papel.

É aquela coisa, a música traduz o artista. Suas canções podem ser simpáticas, gostosinhas, mas nada excitante de se ver/ouvir. É bem melhor esperar pela Cat Power, no Tim Festival, em outubro. Essa com certeza não vai embrulhar seu estômago [o trocadilho é péssimo, mas era inevitável né?]. Para quem já está curtindo um revival dos 90, Glorious é uma boa pedida. Mas em tempos de Regina Spektor, Kate Nash, Amy Winehouse e Lily Allen, ainda existem saudosistas?
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Sexta-feira, 10 de Agosto de 2007

Tropicalternativo II

Restante da matéria sobre Tropicalismo, matéria de capa dessa semana na Revista Paradoxo. Um pequeno guia para quem quer conhecer melhor o movimento.
Quer conhecer o Tropicalismo?
9 canções + 1 filme + 1 livro + 1 expo para entender o mais importante movimento musical brasileiro
por Daniel Faria[07/08/2007]

Caetano Veloso – “Tropicália”
Onde encontrar: Caetano Veloso [1968]

A canção-símbolo do movimento inicialmente nem iria receber esse nome. Quem sugeriu o título foi o cineasta Luís Carlos Barreto, que ao ouvir a música lembrou da obra homônima que o artista plástico Hélio Oiticica expusera no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, alguns meses antes. Mas é inegável que Caetano pretendia sintetizar toda a estética do que viria a ser o Tropicalismo na canção. Um amontoado de colagens poéticas, com o intuito de confundir a história do Brasil com a história da música brasileira. “Eu organizo o movimento/eu oriento o carnaval”. E pede vivas para a bossa nova, para a mulata, para a Bahia, para Carmem Miranda-da-da. A pretensão do então jovem compositor já era grande.


Gal Costa – “Baby”
Onde encontrar: Gal Costa [1968]
A mais bela e singela canção do Tropicalismo e provavelmente da música popular brasileira. Geraldo Vandré [“caminhando e cantando e seguindo a canção...”] chamou a música de “merda” quando a ouviu pela primeira vez. Confundiu-se com o próprio cérebro. "Baby" é a prova de que Gal Costa é a voz feminina da MPB. Sua interpretação sutil e macia à frente da orquestração que vai crescendo aos poucos, cantando os versos tão representativos do que foi – e poderia – ser os anos 60 no Brasil, citando Roberto Carlos, Carolina [aquela do Chico Buarque], camisas escritas “Baby, I Love You”, e que ainda acha espaço para Caetano sussurrar o refrão de Diana [“oh, please stay, by my side”], sucesso de Paul Anka no final, é sublime. Pérola.

Gilberto Gil – "Domingo No Parque"
Onde encontrar: Gilberto Gil [1968]
Se o Tropicalismo deve muito aos Beatles, a culpa é de Gilberto Gil. Pode parecer difícil acreditar que o atual ministro da Cultura poderia ser tão antenado, mas na década de 60 sua produção era completamente ligada ao que de melhor se fazia no outro lado dos trópicos. Veja "Domingo no Parque". Musicalmente ela representa mais para o movimento do que qualquer outra canção. Produção grandiosa, vocais poderosos, roda de capoeira, a história do sorvete, da rosa, do José brincalhão, do amigo João e de Juliana que termina em tragédia, e com Os Mutantes acompanhando. E que ainda teve a pachorra de deixar "Roda Viva", de Chico Buarque, para trás no terceiro Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record.

_assista "Domingo no Parque", com Gilberto Gil & Os Mutantes no III Festival da Música Brasileira, na TV Rio



Os Mutantes – "Panis Et Circenses"
Onde encontrar: Os Mutantes [1968]

Rotação alterada ao fim da música, ruídos de talheres simulando um jantar agitado, frases perdidas e desconexas como “me passa a salada, por favor”. A letra, de Caetano, é simples e bela [“as pessoas na sala de jantar/estão preocupadas em nascer e morrer”], e os arranjos de Duprat lembram algo do Magical Mistery Tour, dos Beatles, como os metais de "Penny Lane" ou a exuberância instrumental de "I Am The Walrus". E executando a canção, Sérgio Dias, Arnaldo Baptista e Rita Lee, Os Mutantes, com toda a juventude e descontração necessária para “subverter os valores” da MPB, que acredite, não estava preparada para o que estava por vir. Se é possível chamar algo de mantra psicodélico na história da música brasileira, então essa é a definição para "Panis et Circenses".

Caetano Veloso & Os Mutantes – "Saudosismo"
Onde encontrar: Caetano & Os Mutantes Ao Vivo – Compacto [1968]

Saudosismo foi gravada por Gal Costa em seu primeiro disco [não considerando a parceria com Caetano em Domingo, de 1967], mas essa versão ao vivo executada durante a seqüência de shows dos tropicalistas na Boate Sucata é histórica. A voz de Caetano procura a sutileza característica da bossa nova no ínicio da canção, até a explosão furiosa no final, com Os Mutantes como banda de apoio. O baiano proclama: "Chega de saudade!" [nome do primeiro disco de João Gilberto]. A partir daí, a música popular brasileira nunca mais seria a mesma. Nem os tropicalistas, que foram acusados pela censura de ofender valores morais durante os shows na Boate, resultando no exílio de Gil e Caetano. Era o começo do fim.


Ronnie Von – "Silvia, 20 Horas Domingo"
Onde encontrar – Ronnie Von [1968]

No final da década de 60, Ronnie Von não era considerado parte da Tropicália e muito menos poderia ser enquadrado como jovem-guardista. Mas hoje é possível perceber que a produção do Pequeno Príncipe entre 1968 e 1972 é quase tão ousada quanto qualquer álbum do movimento. "Silvia, 20 Horas, Domingo", do disco de 1968, soa ao mesmo tempo simplória como uma banda de rock de garagem e pretensiosa como qualquer produção de Duprat, arranjador do álbum. Para estreitar ainda mais ligações com os tropicalistas, lembre-se que ele já gravou com Os Mutantes e com os Beat Boys, os argentinos que ajudaram Caetano a criar "Alegria, Alegria", o primeiro grande sucesso do movimento.

Caetano Veloso & Os Mutantes – "É Proibido Proibir"
Onde encontrar: É Proibido Proibir – Compacto [1968]

"É Proibido Proibir" é outro momento marcante da história da MPB. Classificada no III Festival Internacional da Canção, Caetano se acompanhou d’Os Mutantes e de um hippie endoidecido americano, todos vestidos de roupas de plástico, para apresentar a canção, de melodia simples e refrão inspirado no slogan utilizado nas manifestações dos estudantes franceses de maio de 1968. A platéia, recheada de universitários de tendencia esquerdistas e defensores da “verdadeira música brasileira”, vaiou violentamente durante toda a canção. O compacto traz a gravação de estúdio e o famoso discurso inflamado de Caetano contra os estudantes. “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês não estão entendendo nada! Nada!”
_Ouça o discurso inflamado, sob vaias dos estudantes, de Caetano durante o III Festival Internacional da Canção, na TV Record



Tom Zé – "Parque Industrial"
Onde encontrar: Tom Zé [1968]
Parque Industrial tem letra de Tom Zé, e percebe-se como o baiano já era surtado há um bom tempo. Outra tentativa poética de resumir a pretensão tropicalista, mas com o olhar voltado para a imprensa, de maneira bem-humorada [a produção atual do cantor me faz duvidar se foi ou não proposital]: “A revista moralista/Traz uma lista dos pecados da vedete/E tem jornal popular que/Nunca se espreme/Porque pode derramar”. A canção abre com algo que parece ser o Hino Nacional, então entra um coro feminino que faz suporte para a fraca voz de Tom Zé. Ainda melhor é a versão incluida no disco manifesto do movimento, Tropicália ou Panis et Circenses, com Gil, Caetano e Gal melhorando a canção.


Novos Baianos: "Ferro Na Boneca"
Onde encontrar: É Ferro Na Boneca [1971]

A Tropicália, como movimento, já havia terminado em 1971, quando os Novos Baianos lançaram seu primeiro disco, É Ferro na Boneca. Gil e Caetano voltavam do exílio forçado em Londres e gravavam discos de instrumentação básica que pouco lembravam os primeiros álbuns. Os Novos Baianos - Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira, Pepeu Gomes, Luiz Galvão, Baby Consuelo, que se conheceram num acampamento hippie na Bahia – prometiam reaproveitar a idéia dos “Velhos Baianos”, e construíram uma mistura anárquica de rock, samba, frevo, choro, blues, frevo, tropicalismo e muitos etc. A faixa-título, de apenas dois minutos já dá o tom: “é ferro na boneca, é no gogó neném”. Paz e amor, bicho!

+CINEMA
Terra em Transe
Direção: Glauber Rocha. [106 min ~ 1967]
Caetano disse que a Tropicália foi mais influenciada pelo cineasta Glauber Rocha do que pelos Beatles. “Porque, diretamente, profundamente influenciado, toda aquela coisa de tropicália se formulou dentro de mim, no dia em que eu vi Terra em Transe”. O filme, de 1967, é tão importante para o cinema nacional quanto o tropicalismo foi para a música brasileira. Terra em Transe é um filme alegórico que, ao criar um fictício país latino-americano, Eldorado, governado pelo ditador Diaz, faz um alerta a ditadura militar no Brasil, que já começava a tomar formas concretas. Ganhou prêmios em festivais importantes por todo o mundo, mas enfrentou problemas com a censura em território nacional por ser considerado subversivo. Obrigatório.

_assista Trecho do filme de Glauber Rocha


+LITERATURA
Tropicália: A História de Uma Revolução Musical
Claro e conciso para os iniciantes, informativo e divertido para os já conhecedores, o livro de Carlos Calado é um delicioso documento histórico da Tropicália. Vários depoimentos, reconstituição do momento pré-fama dos protagonistas, pesquisa cuidadosa, fotos inéditas, tudo numa linguagem simples e atraente. A Editora 34, aliás, tem ótimos livros sobre música brasileira como Quarenta Anos de Rock, de Furio Lonza, A Era dos Festivais, de Zuza Homem de Melo e o ótimo Tem Mais Samba, do jornalista Tárik de Souza, dentre muitos outros. Vale a pena conferir no site da editora: http://www.editora34.com.br/.

por Carlos CaladoEditora 34
333 pág.


+EXPOSIÇÃO
Depois de fazer o circuito Chicago-Londres-Berlim-Nova York, a exposição Tropicália chega ao Museu de Arte Moderna [MAM] do Rio de Janeiro. A mostra é excelente oportunidade para conhecer a instalação-marco do movimento, Tropicália, de Hélio Oiticica - “a obra mais antropofágica da arte brasileira”, nas palavras do próprio – 40 anos após sua exposição na lendária mostra Nova Objetividade Brasileira, no mesmo MAM.

São mais de 250 objetos, entre obras, cartazes, poesia e roupas, a fim de demonstrar que o Tropicalismo rompeu com vários paradigmas, e não somente a música. O curador da exposição, o crítico argentino Carlos Basualdo, considera o movimento cultural como "talvez, o mais relevante surgido na América do Sul nas últimas cinco décadas". Tropicália fica em exposição até o final de setembro.

Tropicália – Uma Revolução na Cultura Brasileira
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Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro [av. Infante Dom Henrique, 85, Rio de Janeiro, tel. (21) 2240-4944]. De terça a domingo, das 12h às 18h. De 8/08 a 30/09. O catalógo da exposição, com ensaios e textos da época, é editado pela Cosac Naify [376 págs., R$ 120].
Imagens: reprodução
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Quarta-feira, 8 de Agosto de 2007

Tropicalternativo

Dia de comemoração [atrasado um dia, na verdade]: minha segunda capa na Revista Paradoxo, que completa 4 anos de existência, com os 40 anos de Tropicalismo, no mesmo dia que seu líder Caetano Veloso completa 65 anos. Vários aniversários em uma mesma data. Ainda assim, acho que ano que vem vão comemorar 40 anos do disco Tropicália ou Panis et Circenses e as pautas estarão vivas novamente. Bem, se a Folhateen deu capa, se a Bravo deu capa, se a Cult deu capa, se a Rolling Stone vai dar capa...well, what can I do? Por enquanto posto aqui, em três etapas, as matérias de capa do site: A Tropicália “é Linda!”; Quer Conhecer o Tropicalismo? e Análise: O Que Foi o Tropicalismo. Ah, leia as matérias no site, a diagramação é bem melhor do que aqui.

O Tropicalismo 'é lindo!'

A última e principal revolução musical no País completa 40 anos em 2007 e a Paradoxo apresenta um roteiro para conhecer esse intrigante movimento

por Daniel Faria[07/08/2007]

No verão londrino das flores de 1967, os Beatles lançavam Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band, talvez o disco mais incensado de todos os tempos. Um ano depois, no Brasil, um coletivo de artistas carismáticos e de cabelos desgrenhados vindos da Bahia, mais três garotos burgueses paulistas, um maestro vanguardista e uma cantora consagrada, ambos cariocas, foram os principais responsáveis pelo disco Tropihcália ou Panis et Circenses. Guardadas as devidas proporções, o estrago foi o mesmo. Se o primeiro se tornou um marco no rock mundial, o segundo é a obra mais revolucionária da história da música brasileira. Em comum, o choque entre a cultura dita popular e a cultura de elite.

Revolucionário porque os conflitos entre os estilos musicais vigentes na época passavam para divergências de caráter político e até pessoais. Imagine a situação: de um lado a elite carioca, herdeira da Bossa Nova [Chico Buarque, Edu Lobo, Elis Regina], do outro os compositores das chamadas “canções de protesto”, de cunho nacionalista [Geraldo Vandré e o próprio Chico], adorado pelos universitários. No outro extremo, a Jovem Guarda, de Roberto, Erasmo e companhia, acusados de americanizados e comerciais. O Tropicalismo conseguiu misturar tudo isso e ainda assim desagradar a [quase] todos.

O grande catalisador dessa idéia foi, pelo menos na concepção sonora, Gilberto Gil. Entusiasmado com o que acontecia no exterior com os Beatles, Gil ajudou a contaminar a cabeça de Caetano Veloso e ambos saíram da Bahia, acompanhados de Tom Zé, Maria Bethânia, Gal Costa e o poeta José Carlos Capinam. Em São Paulo, encontraram reforços nos Mutantes e em Torquato Neto, o responsável por erguer a bandeira tropicalista no manifesto à imprensa, “Tropicalismo para Iniciantes”, no qual defendia “assumir publicamente tudo o que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar a cafonice ou o mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra”.

Mas é Caetano Veloso o grande líder do que se convencionou chamar de Tropicalismo. Líder da geração para alguns, caricatura de intelectual para outros, o compositor virou assunto popular quando sua marchinha beatlemaníaca Alegria, Alegria, quarto lugar no III Festival de MPB da TV Record, estourou no País, em 1967, marco zero do movimento. Liderada pelo baiano, a “cruzada tropicalista” soube causar polêmicas.

Problemas com a censura, que acusavam os baianos de subversivos, pelos cabelos compridos e roupas femininas. Problemas com companheiros de MPB, que acusavam o movimento de anti-nacionalista (segundo Dedé, mulher de Veloso à época, Edu Lobo a ignorou após encontrá-lo em São Paulo). Problemas com os estudantes esquerdistas, que vaiaram o coletivo tropicalista no III Festival Internacional da Canção, em 1968. E que enfim acabou com o ideário quando os militares prenderam a dupla principal e forçaram o exílio em Londres, dando um decreto final para uma história que poderia render muito.

_tropicalizando o mundo
O efeito tropicalista atingiu até mesmo os setores ditos mais conservadores da MPB. Gal Costa superou Elis Regina e se tornou a mais popular cantora feminina da década de 70. Chico Buarque, ídolo de quem defendia a música tradicional brasileira, gravou com Rogério Duprat o seu melhor disco, Construção, de 1971. Até o “tremendão” Erasmo Carlos lançou um disco em 1972 com participação dos Mutantes.

A influência também foi sentida no rock brasileiro dos anos 1980, com a crítica classificando os Titãs como neo-tropicalistas e lançando discos com releases de Caetano. Hoje é possível perceber que, se há uma proposta de reinvenção da música popular brasileira, ela passa pela ótica do que foi feito no fim dos anos 1960. Vide artistas como os Los Hermanos e a Orquestra Imperial, propondo uma busca aos valores estéticos tipicamente nacionais, notadamente o samba.

No resto do mundo, artistas tão díspares como Beck e David Byrne, ex-Talking Heads, se declaram influenciados pelo movimento. O segundo, inclusive, é responsável por tirar Tom Zé do ostracismo ao lançar o baiano no mercado internacional. O disco The Best of Tom Zé, editado por Byrne em 1990 foi aclamado pela crítica, ficando entre os dez melhores da década em todo o mundo, na avaliação da revista americana Rolling Stone. Beck é fã declarado de Caetano Veloso e Jorge Ben, e chegou a gravar uma canção chamada "Tropicalia" para seu disco Mutations.

Kurt Cobain, ex-líder do Nirvana chegou a enviar uma carta, em 1993, para Arnaldo Baptista, dos Mutantes. “Cuidado com o sistema. Eles te engolem e te cospem fora como sementes de cereja”, escreveu, e pediu também a volta do grupo. Pena que ele não tenha sobrevivido para presenciar a exposição Tropicália, no Barbican Centre, em Londres, que marcou a volta dos Mutantes, agora com Zélia Duncan nos vocais.

Publicações conceituadas como o jornal The New York Times ou a revista britânica The Wire dedicaram artigos extensos analisando a Tropicália. Foi um momento ímpar de criação estética, talento provocativo e o mais importante, vontade de experimentar. Tudo bem, isso pode parecer papo de intelectualóide para você que acha que, na verdade, o rock de três acordes, roupinhas e cabelos, isso sim é ousado. Mas entender o que é transgressão dentro de valores tão bem pré-estabelecidos e perigosos, como é a MPB, bem, isso requere alguns neurônios a mais.


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Análise - O que é o Tropicalismo?

Movimento cultural é o Santo Graal da Música Brasileira

por Daniel Faria[07/08/2007]

É o conceito perfeito: digerir todo tipo de cultura, erudita ou não, e devolvê-la como um produto original, provocativo. Há quem trate o Tropicalismo como continuidade do Movimento Antropofágico, dos modernistas ligados a Semana de 22 [Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral], mas há de se perceber que os baianos buscaram um outro horizonte. Não tinham um planejamento bem definido. Agiam como liquidificadores: condensavam tantas influências quanto eram capazes, numa mistura que deveria soar ainda assim agradável ao cidadão comum.

Tome o exemplo de uma música como "Alegria, Alegria". Consegue ao mesmo tempo ser marchinha carnavalesca e melodicamente pop como os Beatles, vai desfilando detalhes pela letra, como se descrevesse uma caminhada por uma avenida de cidade grande. É a percepção de exercer tudo ao mesmo tempo, não perder uma única referência. É marco zero do pós-modernismo no País. O kitsch agora era válido, o banal poderia conviver lado a lado com o erudito. Abaixo a divisão entre baixa e alta cultura!

O que é um perigo. Por que o conceito é tentador demais para ser ignorado. Coloca o Brasil no lugar de cosmopolita, central e processador de informações da cultura do mundo. Hoje em dia, só se credita talento no País para quem ainda vê a música como os tropicalistas definiram nos anos 1960. É assim que aconteceu o sucesso [de crítica ao menos] de Marisa Monte, do mangue beat, dos Los Hermanos, e agora da Orquestra Imperial. A idéia continua a mesma: apresentar uma versão moderna do produto tipicamente nacional, venha de onde vier esse produto.

Por exemplo, Caetano é capaz de gravar canções de Peninha, cantar trechos de funk carioca no meio de suas canções e regravar clássicos de Chico Buarque, tudo em um mesmo disco [a saber, no ao vivo Prenda Minha]. Acontece de ser arrogante – e por isso mesmo sedutor – pois se coloca como porta-voz do tudo, de todas as culturas. Ele pode gravar um disco de standards americanos [A Foreign Sound, de 2004] e se meter a fazer indie rock dois anos depois [, do ano passado]. E pode gravar o disco que quiser, porque ele é tropicalista e o Tropicalismo permite tudo.

Se parece bom para os tropicalistas, isso engessa qualquer outro tipo de possibilidade de se criar música não-tão-universal no Brasil. Não adianta ser apenas rock, não adianta ser apenas samba, não adianta ser apenas funk. Tem que ser tudo ao mesmo tempo. Por isso que os grandes nomes da MPB continuam sendo os mesmos de 40 anos atrás. É uma sombra assustadora para os novatos.
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Falta o roteiro, que coloco depois, com mais tempo.

Quinta-feira, 2 de Agosto de 2007

Orquestra Imperial - Carnaval Só Ano Que Vem

Fiquei na dúvida se encarava resenhar o disco da Orquestra Imperial para a Paradoxo. Não tinha decidido se tinha gostado ou não do álbum. Gostei bastante do EP e do que tinha visto ao vivo. “Carnaval Só Ano Que Vem” me pareceu simplório, apenas simpático, mas talvez porque esperava algo mais pretensioso. Após a decepção inicial que quase me fez desistir da matéria, passei a ouvir com mais atenção e percebi que eu é estava errado na história e não tinha percebido que a Orquestra é festinha particular. Se eles conseguiram lançar um disco pela Som Livre e agradar 99% da imprensa abobalhada com um projeto que todos os 19 (!?) membros encaram como brincadeira, bem, então tudo que posso falar sobre o conjunto está nesse texto, que foi escrito sob essa dúvida e que também é destaque no site. Gosto muito mais do disco agora do que quando escrevi. Bem, agora já foi. : )

Desde que o Samba é Samba é assim
Super-grupo de artistas cariocas, Orquestra Imperial busca um resgate estético da tradicional MPB em seu disco de estréia, Carnaval Só Ano Que Vem

por Daniel Faria[01/08/2007]

Parece brincadeira, e na verdade é. O que começou como festa, acabou virando a grande promessa de revitalização da música brasileira. São 19 integrantes, entre eles alguns dos mais talentosos artistas da atual geração do País. Veja só: o badalado produtor Kassin, o guitarrista Pedro Sá, Moreno Veloso, produtor de Cê, do pai Caetano, Rodrigo Amarante, do Los Hermanos, a estilista Nina Becker, a atriz global Thalma de Freitas, entre muitos outros, são os membros da Orquestra Imperial. Seu primeiro disco, Carnaval Só Ano Que Vem, também será lançado na Europa e no Japão. Ainda não é um “movimento”, mas o coletivo está causando burburinho há tempos não visto aos interessados na música popular contemporânea feita por aqui.

Para se ter uma idéia, nomes de peso já participaram das concorridas apresentações do super-grupo, como Caetano, Marisa Monte, Erasmo Carlos, Lobão, Andréas Kisser [guitarrista do Sepultura], Zeca Pagodinho e Seu Jorge, antigo crooner do conjunto e que abandonou o barco no meio do caminho. O ecletismo dos convidados ilustres demonstra bem o que é a Orquestra Imperial: boleros, marchinhas de carnaval, canções infantis e até clássicos do rock progressivo em versão samba. Tudo com o intento de fazer dançar, como uma autêntica orquestra de gafieira.

E a fórmula funciona. Seus shows são sempre procuradíssimos. A Orquestra surgiu quando Kassin e o baterista Domenico Lancelotti decidiram colocar em prática o velho sonho de montar uma Big Band de baile, como antigamente. Um dos produtores do disco, Berna Ceppas, era sócio de um restaurante da Gávea e conseguiu uma noite semanal para o grupo. Após poucas apresentações, a banda se tornara fenômeno no Rio. Logo, agregando membros mais ou menos experientes com os bens sucedidos shows, a banda chegou a tocar em Portugal, França e em Londres, numa exposição sobre o Tropicalismo, que aconteceu no Centro Cultural Barbican Centre, em maio deste ano.

Apadrinhado pela velha geração, com apoio de grande parte da imprensa e de um número crescente de fãs, desde a classe média descolada, universitários neo-hippies a tradicionais pesquisadores de samba, o primeiro disco da Orquestra Imperial veio recheado de expectativas. Ainda mais com a promessa de um álbum com apenas canções próprias, sem as versões que eram a graça das festivas apresentações. Carnaval Só Ano Que Vem deve agradar a todos esses.

_samba descompromissado
É preciso, porém, com o disco pronto, saber controlar o entusiasmo. E entender qual é realmente a proposta desse coletivo de artistas. Primeiro, o grupo não procura traçar novos caminhos para a música popular brasileira, como fizeram os tropicalistas - comparação usual com a Orquestra Imperial. Muito pelo contrário: se aqueles pretendiam polemizar, estes só querem se divertir.

Segundo, a pretensa modernização do samba, como andam propagando por aí, não existe. Sim, alguns efeitos eletrônicos surgem aqui, algumas guitarras atrevidas dão a cara ali, mas no geral, Carnaval Só Ano Que Vem é puro saudosismo do samba travestido de homenagem moderninha.

As canções variam entre bossa easy listening [a melancólica "O Mar e o Ar", cantada por Amarante, e "Rue Des Mês Souvenirs", em francês perfeito de Nina Becker são as melhores do disco] sambões ["Era Bom", puro Zeca Pagodinho e "Salamaleque"], típicas orquestrações de baile ["Yarusha Djaruba" e a ótima "Ela Rebola"] e uma homenagem pseudo-tropicalista para "Alegria, Alegria", do mestre Caetano em "Supermercado do Amor", com letra do “vampiro” Jorge Mautner.

As letras do disco são tão despretensiosas que às vezes beira o banal. Alguns trocadilhos vulgares, algumas referências sexuais e versos de qualidade duvidosa como “ela rebola daqui/ ela rebola de lá/ mas pra mim, bola ela não dá” ["Ela Rebola"], ou “a ereção não tem hora para chegar/ com ou sem emoção em festa ou particular” ["Ereção"]. Tem pouco de espírito desbravador e muito de diversão, descompromisso e liberdade estética no disco. Afinal, disso é feito o samba. São jovens cariocas querendo se divertir. Caso divirta o público, tanto melhor. Que dure até o próximo carnaval.
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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Complexo de Vira-Latas

[Foto retirada do site Scream&Yell, com as sete promessas do indie nacional para 2007. Na sequência: Beto Só, Supercordas, Pullovers, Charme Chulo, Vanguart, Violins e Lasciva Lula]

A todo o momento sou confrontado com alguma nova banda independente brasileira. Amigos perguntam o que achei do disco novo do Superguidis, se o Los Porongas é isso tudo o que falam, se o Vanguart é realmente a melhor banda indie a surgir no país em muito tempo. Também devo tentar tomar conhecimento dos lançamentos das bandas médias. Sábado teve show do Moptop em Bauru, na Vip, boate bem vagabunda. Preciso entrevistar a Vanessa do Ludov para essa semana. Resenhei o disco do Cachorro Grande nesse blog há pouco tempo. Minhas primeiras letras impressas na extinta revista Bizz era uma pequena nota sobre o trio de Fortaleza O Quarto das Cinzas. Meu primeiro texto publicado em algum lugar que não seja o Flop Art foi uma entrevista com o Ludovic para o site Scream & Yell. Confesso que venho tentando gostar do rock independente do Bananão, mas está difícil.

Comparar a qualidade e os defeitos dessas bandas é como comparar o Riquelme com o Lulinha, do Corinthians. Por mais que se torça, por mais que se divulgue, os indies brasileiros não merecem fama, não merecem vender discos, não merecem respeito. Claro que há exceções, e estas devem ser aplaudidas. Mas estou cansado de tentar procurar nas Tramas virtuais e myspaces da vida o grupo com potencial para transcender. Não, esses grupos não existem, e os culpados nessa história são muitos.

Para começar, o público médio do país não se interessa em buscar algo que não seja imposto pelas rádios e principalmente pela televisão. A opção do adolescente que procura fugir do padrão micareteiro é a internet. É lá que ele descobre, por exemplo, que o Arctic Monkeys vende alguns milhões de discos mesmo sem estar atrelado a uma grande gravadora. É ali também que a banda paulistana Cansei de Ser Sexy, CSS para os gringos íntimos, representa o Brasil para o mundo, mesmo que a grande parcela da população bananesca pense que Lovefoxx é nome de boneca amiga da Suzie. Veja que o alcance dos indies é menor do que vocês e eu, os arrogantemente bem-informados, pensamos. Pobres coitados de nós.

Mas vá lá: ainda assim, pensando estritamente nesse tipo de público – o que sabe diferenciar mp3 de um mp4 de um mp5 de um iPod – por que nossas destemidas bandas nacionais não pegam? Afinal, elas são comentadas nos mesmos lugares que as bandas inglesas e americanas, não são? Por que não é possível repetir aqui o modelo anglo-saxão de se comprar música? E principalmente, o que levou o CSS e o Bonde do Role a atravessarem essa fronteira e deixarem Os Telepatas, Matanza e Zeferina Bomba para trás? A resposta é simples. Glamourous indie rock ‘n roll, it’s all we need.

Quem pediu isso foi Brandon Flowers, o vocalista franguinho do Killers, em 2004, marco zero da explosão (moderada, concordo) da música indie no planeta. Esse glamour na verdade vêm de 2001, quando os Strokes fizeram fama com suas roupinhas apertadas, seus all-stars e gravatinhas, cabelinhos ensebados, tudo assim mesmo, no diminutivo. Não tem nada a ver com a música em si, que nem era grande coisa. Mas sim com o sentimento de orgulho, em parecer cool (esse termo deve ter sido utilizada algumas trocentas zilhões de vezes de 2001 para cá), fazer parte de um clubinho fechado só para os descolados. A sugestão é algo do tipo: paremos com esse negócio de alternativos losers da década passada, e sejamos cool, sejamos indies.

É só lembrar quem são os ícones alternativos dos anos 90. Um careca gordo (Billy Corgan), um careca gay (Michael Stipe), um inglês vesgo (Thom Yorke), um maníaco-depressivo-suicida (Kurt Cobain), uma ex-viciada em heroína (Courtney Love). O que Brandon Flowers pediu em seu single era o fim dessa estética de perdedor, de intelectual de universidade. Como bom garoto de Las Vegas, o vocalista do Killers queria cores, fluorescências, e não aquele aspecto cinza aparente da década passada. A razão dos indies invadirem as paradas nos anos 00 é exatamente por esse brilho, próprio dos filhotes da internet.

O que não acontece com as bandas independentes brasileiras. Sendo generoso, elas são desprovidas de recursos. Sendo sincero, elas são toscas. Quer fazer o teste? Veja fotos de divulgação das duas bandas abaixo. Uma é incensada na Inglaterra e a outra é considerada por muitos como o mais promissor grupo indie do Brasil. Adivinhe qual mora no Bananão?

Fácil né?

A primeira é o Klaxons, criadores do termo new rave e última (mesmo?) grande promessa da imprensa inglesa. Seus shows são festas coloridas, alegres, roupas brilhantes, cornetas e bastões laranja e verde-limão. Produto completo para criar modinhas, tanto que o termo new rave foi capa da Folhateen da semana passada. Já a segunda é o Vanguart, banda de Cuiabá (!?), que foi capa, da, er, “coluna” do pseudo-jornalista Humberto Finatti no site Dynamite. Estética da fome na música também? E ainda reclamam da falta de apoio da imprensa e do público. A culpa é só da música? Também. O público quer pagar de moderninho e ouve os ingleses para impressionar? Também, mas essa é a deixa que eu precisava.

O que dizer então do sucesso do Los Hermanos? Ou até mesmo do NX Zero? Bem, os últimos souberam se aproveitar do fenômeno emo e apresentaram um produto de fácil consumo para quem tem menos de 14 anos. Tem seus méritos. Já os Hermanos são a banda mais inteligente do Bananão desde que Renato Russo sabiamente se aproveitou dos princípios básicos do rock ‘n roll – a polêmica, o messianismo, letras que causam empatia no adolescente – mesmo que seus integrantes sejam feios, barbudos e magros. O por quê disso? A banda, em certo momento da carreira, optou por abandonar os preceitos do rock - conservador, retrógrado e antiquado - e escolheu um caminho onde pudessem exercer sua criatividade sem depender necessariamente de boa imagem e divulgação: a MPB. Espertos, os cariocas transformaram sua falta de carisma, fator primordial no produto rock, em arrogância, discrição, intelectualidade. Enganou muitos, angariou respeito de peixes grandes e encerrou – ou não – as atividades antes de se tornarem dinossauros pragmáticos remoendo a carcaça, tais qual os Paralamas do Sucesso, os Titãs, os Engenheiros do Havaii.

Citei também o CSS e o Bonde do Role. Espertas, as meninas paulistanas do Cansei souberam capitalizar a modinha indie mundial, com blusinhas listradas, franjas, adidas e/ou all-stars e aquela mentalidade garotinha-moderninha-resolvida, pagando de safadinha. Já os curitibanos fizeram o mesmo, adicionando humor grosseiro a canções divertidíssimas, e chamando a atenção dos gringos, mesmo cantando em português versos impagáveis como “”tatu, tatu, James Bond dá o cu”. Não, eles não se levam a sério, como os goianos do Violins, que adoram rechear suas canções de ironias nada sutis, ou os gaúchos do Superguidis, que até realizaram um disco bem produzido, mas que contém versos sérios – sem deboche - como “apesar da chuva que tomei para te encontrar, não estou resfriado” e “apesar de eu parecer um chato de plantão, não estou preocupado”. Pelo menos eles sabem.

Porque na verdade, isso é tudo o desabafo de quem quer viver de escrever sobre música e que encontra dificuldades para apresentar um produto independente nacional para o público. Gosto bastante da banda de Curitiba Charme Chulo, mas como vou apresentá-la de forma atraente, se nem o nome da banda ajuda? Falta ganância, falta pretensão, falta senso de ridículo principalmente, mas falta também vontade de fazer sucesso. Aquilo que os Mutantes tiveram quando se uniram com os baianos tropicalistas para chocar os emepebistas, aquilo que Raul Seixas teve quando decidiu ser Elvis Presley e Luiz Gonzaga ao mesmo tempo, aquilo que os Titãs tiveram na década de 80 ao experimentar todas as fórmulas e ainda assim, tocar no rádio. Nunca pretenderam ficar presos em nichos e fizeram a fama acontecer. Já os indies brasileiros? Veja a letra de “Por Trás do Fator Gallagher”, da banda Terminal Guadalupe:

“Eu odeio gente cool
Que se acha cool
Eu rimo em português
E mando logo tomar no cu

Eu odeio quem é blasé
Ou faz pose blasé
Eu rimo em português
E mando logo se fudê”

Viu? Tá tudo errado, tudo errado. É exatamente o contrário! Depois a culpa é dos jornalistas. Ê complexo de vira-latas!