Reproduzo minha entrevista com a Vanessa Krongold, a simpática vocalista do grupo paulistano Ludov. A
foi publicada na última edição da Paradoxo. Só.
Você provavelmente conhece o Ludov. Aquela banda que ganhou o Vídeo Music Brasil da MTV, em 2004, com o clipe-animação fofinho de “Princesa”, música preferida das garotinhas universitárias. Não sabe do que se trata? Então você deve conhecer a canção “O Que Eu Procurava”, da trilha sonora do filme
High School Musical, do Disney Channel. Ainda não? Pois você pode estar perdendo a melhor banda de pop-rock – o termo faz todo sentido nesse caso – do país no momento. Suas canções são positivas e contagiantes.
O Ludov trilha praticamente sozinho o meio termo entre o
mainstream – planejado, repetitivo - e o
underground – descompromissado, às vezes amador em excesso. Há tempos deixou o circuito independente e vem adquirindo um público cada vez mais interessado nas belas composições do grupo. Guardam ligações com o Pato Fu, por exemplo, mas suas canções não são tão cerebrais. Privilegiam a simplicidade nos arranjos, as letras causam empatia, quase pequenas crônicas do cotidiano de cidade grande.
O grupo surgiu das cinzas do incensado Maybees, banda formada pelos mesmos integrantes do Ludov, com exceção do baterista Paulo “Chapolin”. Trocaram o nome, começaram a compor em português, gravaram o EP
Dois a Rodar – que contém “Princesa” – e o primeiro álbum,
O Exercício das Pequenas Coisas, lançado em 2005. Uma base sólida de fãs, alguns hits no repertório, lançaram em julho seu segundo álbum,
Disco Paralelo, com status de banda consolidada.
A
Revista Paradoxo falou com a adorável vocalista Vanessa Krongold, Formada em Publicidade e Marketing [assim como o guitarrista e principal compositor do Ludov, Mauro Motoki], Vanessa é um poço de simpatia. Simpatia, aliás, que contrasta com seu tom de voz denso, em conflito com as composições quase sempre de bom astral da banda. Digo isso a ela. “Sim, apesar das letras terem uma mensagem extremamente positiva, as melodias e os próprios arranjos não permitem que a gente diga que as músicas são exatamente alegres. O interessante é que, apesar disso, o disco não deixa de ser contagiante, especialmente após a segunda ou terceira audição”, explica.
Quem ouve canções como “Ciência” e “Rubi”, a melhor do disco novo, sabe do que ela está falando. Nessa última, você fala em se sentir uma menina, num gramado, o sol batendo. O que te inspira a cantar? “Como intérprete, às vezes eu sinto necessidade de saber no que o autor estava pensando quando escreveu aquelas frases. A partir daí, eu faço a minha leitura desse universo para que possa incluir o meu sentimento na música. Em contrapartida, às vezes é mais interessante deixar a música me atingir como ouvinte apenas, deixar que ela me sensibilize como for, sem racionalizar o que eu canto”.
+042.jpg)
Ela acabou de resumir o que é o Ludov . Uma banda que usa muito mais os fatores sensoriais e o coração do que a racionalidade, que possa embrutecer a concepção nada consensual que os rodeia. Em “Fugi Desse País”, do disco novo, Vanessa canta que “essa cidade não conhecerá meu fim, o que procuro encontrarei dentro de mim”. A banda propõe aos seus ouvintes escapar, habitar um lugar a parte. É na simplicidade que se encontra a felicidade.
_transpirando inspiraçãoApesar do desejo de evasão, o Ludov ainda está entre nós. E onde pretendem chegar com
Disco Paralelo? Acredita que é possível subir mais alguns degraus no reconhecimento popular? “Não fazemos esse tipo de plano. A gente está nesse barco há tempo suficiente pra saber que a ansiedade só leva à frustração. O que a gente quer é seguir nosso caminho, continuar fazendo o que a gente acha certo, o que pra gente é música de verdade”, despista.
A verdade é que
Disco Paralelo é sim uma tentativa de angariar um público maior. Canções acessíveis, melodias agradáveis, produção competente. Como foi trabalhar com o badalado produtor Chico Neves [O Rappa, Lenine, Los Hermanos]? “O Chico interferiu na medida exata pra acrescentar sem que nada se perdesse. Aquelas mesmas músicas que mandamos pra ele ouvir estão lá, o mesmo
feeling, a mesma pegada, a mesma naturalidade de um ensaio. E como foi bom ter ele por perto! Além de ter 100% de controle de cada som que é emitido dentro daquele estúdio, é uma das pessoas mais cativantes que já conheci. Ganhamos uma família de amigos e um álbum com uma qualidade muito além do que podíamos prever”.
Pergunta óbvia: por que
Disco Paralelo? “Pareceu ser o nome ideal para um disco que foi feito com tanta liberdade, que nasceu pela simples necessidade de existir. Sabe quando uma banda ou artista quer fazer outro projeto, gravar disco solo, fazer tudo que não pode fazer na sua banda principal porque existe uma série de limitações? Pra gente isso não existe, não temos amarras ou opressões. Tudo que está ali é reflexo de cada um de nós”, responde.
Como você avalia sua evolução como cantora desde o Maybees, há dez anos, e agora, lançando o segundo disco com o Ludov? “Eu acredito que a maior diferença é que hoje eu sou muito mais aberta a receber influências diferentes, o que me oferece mais versatilidade para cantar. Isso se resume em uma palavra: liberdade”. Influências essas que transparecem no disco. Falo para ela que duas faixas do disco, “Noite Clara” e a faixa título me lembraram Los Hermanos, talvez pelas guitarras. Há no Ludov esse interesse em associar o rock à música brasileira?
Ela desconversa. “Sinceramente, nós não temos nada planejado. Não queremos lançar nenhum estilo, tampouco seguir outros. O que você ouve de Ludov é o que a gente consome: arte, viagens, convivência com quem quer que seja. Isso tudo se mistura e é transpirado pela banda”. Perguntada sobre o que os outros membros da banda estavam ouvindo na época de produção do disco, Vanessa cita os dois melhores discos nacionais do ano passado,
Cê, de Caetano e
Infinito Particular, da Marisa Monte. “Tem razão, eu é que não entrei no clima do Caetano nesse disco”, brinca.
E como foi a repercussão da versão da música “What I’ve Been Looking For” (“O Que Eu Procurava”) para o filme
High School Musical, da Disney? “Essa versão só nos trouxe alegrias. Está claro que é um projeto não convencional para o Ludov, mesmo porque foi a primeira música que gravamos que não é nossa, é uma versão. Mas com umas mudancinhas no arranjo, acho que conseguimos deixá-la com a nossa cara, o que é muito estimulante”. Ajudou a banda a ganhar novos fãs? “O público que atingimos com ‘O que eu procurava’ é gostoso demais! É uma delícia ver a criançada nos shows (à tarde, claro) cantando com a gente”.
Os indies mais xiitas não chiaram? “As críticas foram muito poucas, algumas pessoas acham que a gente fez isso em troca de muito dinheiro. Se foi isso, esqueceram de pagar a gente”, retruca em tom de brincadeira. E nem devem levar isso a sério mesmo. Porque o que interessa no Ludov é exatamente essa liberdade, essa pouca afeição a interferências externas. É o que torna o grupo tão atraente. Atemporais, poderemos olhar para trás daqui alguns anos e constatar que não havia banda mais simpática.
Crítica: Disco Paralelo
_álbum é ode ao descompromisso 
A primeira impressão é que falta em
Disco Paralelo alguma grande canção, como “Princesa” ou “Kryptonita”, do disco anterior. Nenhuma das novas músicas estabelece uma relação imediata com o ouvinte. Aos poucos, porém, é possível criar vínculos com pequenas pérolas como “Sobrenatural” ou “A Espera”. É um disco mais homogêneo, não há nenhuma canção realmente dispensável [com exceção talvez de “Urbana”, previsível demais]. “Noite Clara” e “Disco Paralelo” são as boas surpresas, baladas contidas, perfeitas para o inverno.
Com a saída do baixista Eduardo Filomeno, não existem mais posições fixas no Ludov. Todos revezam-se nos instrumentos, mas são os bons riffs e a condução rítmica dos guitarristas Mauro Motoki e Habacuque Lima, o diferencial do Ludov para outros grupos de pop rock, sem soar banal. As letras ainda falam de assuntos cotidianos, e em canções como “Conversas em Lata” o clima fica denso. No geral, porém, é música para se ouvir em tardes ensolaradas num parque com a namorada(o) do lado. Simples assim.